Paraíba

Presidiárias que disputaram final da ‘Miss Reeducanda’ reacendem sonhos de liberdade

133894,362,80,0,0,362,271,0,0,0,0Atualmente, a Paraíba conta com 670 mulheres reeducandas, distribuídas nos municípios de Cajazeiras, Patos, Campina Grande e João Pessoa. Pela primeira vez e em alusão ao mês da mulher, foi promovido o concurso ‘Miss Reeducanda’, que teve a final realizada nessa sexta-feira (28), no auditório do Centro de Ensino da Polícia Militar, na capital paraibana.

A proposta era selecionar as mais belas mulheres do sistema prisional da Paraíba, entre as 69 participantes, fazendo ressurgir a autoestima e os sonhos, junto à feminilidade, que muitas vezes parecia se apagar desde o momento em que elas tiveram o primeiro contato com o submundo do crime e foram condenadas à restrição de liberdade.

As reeducandas de todos os presídios do estado participaram do concurso. Foram realizadas etapas eliminatórias, das quais saíram quatro candidatas para as categorias Presidiária (18 a 30 anos), Queen (40 a 50 anos) e Plus Size, para assim disputarem a grande final, que garantiu muita beleza, autoestima e emoção.

Preparação

Nos bastidores da grande final, era possível perceber o clima de ansiedade e nervosismo. Todas estavam bastante felizes com o momento e surpresas pela quantidade de pessoas que estavam na plateia, muitas delas, familiares que foram prestigiar a beleza e aplaudir aquelas mulheres, que tiveram o convívio interrompido por alguma prática delituosa.

Reeducandas ficaram bastante ansiosasFoto: Reeducandas ficaram bastante ansiosas
Créditos: Portal Correio

Entre alguns retoques na maquiagem e os últimos preparativos com os cabelos, era nítida no olhar das apenadas a vontade de sentir aquele momento de homenagem e prestígio como um ensaio da liberdade.

Embalada por esse sonho, Márcia Félix, 28 anos, cumpre pena no presídio Júlia Maranhão, na Capital paraibana, por envolvimento com tráfico de drogas e era uma das doze mulheres, que chegaram ao final do evento. Ela não conseguia disfarçar o constrangimento de ter que entrar no auditório com algemas. Repórteres fotográficos perceberam a sensibilidade e nem ousaram a um clique sequer.

Reeducanda Márcia Félix

Foto: Reeducanda Márcia Félix
Créditos: Portal Correio

Condenada a viver por mais de sete anos atrás das grades, Márcia se diz arrependida dos erros que cometeu e já cumpriu dois anos e seis meses da pena. Com os olhos lacrimejando, a finalista da categoria Plus Size, também se revelou confiante quando perguntada sobre a importância daquele concurso para a vida dela.

“Vejo como um grande desafio, pois apesar de estar num lugar como aquele. Apesar da situação que a gente vive, a gente não deve se entregar ao que está vivendo, ao sofrimento, a dificuldade e às lutas. Quando surgiu essa oportunidade eu fui mas, eu não imaginava que eu chegaria à final, mas assim eu vi que eu tinha capacidade, isso só me levantou, me evoluiu. A sensação é maravilhosa; eu nunca tinha sido coroada na minha vida. Me sinto valorizada, vitoriosa e linda.” Disse ela.

Entusiasmada com o concurso, Márcia ainda disse que a família estava na torcida e que também faz parte de outras atividades de ressocialização, participando como uma das vozes do grupo musical gospel Coral Luz, formado há mais de um ano, constituído apenas por presidiárias da unidade prisional onde também ajuda na limpeza para auxiliar na redução da pena.

Ainda antes do evento, elas faziam questão de mostrar o que sabiam fazer de melhor, revelando que a criminalidade não tomou o espaço do talento. Era o é caso de Amanda Brito, 20 anos, mãe de dois filhos, que cumpre pena do presídio do Serrotão, em Campina Grande, a 122 km da Capital, e concorreu na categoria Miss Presidiária. A reeducanda é mais conhecida na unidade prisional como ‘cara de gato’ e, na opinião das própria colegas, possui uma forte semelhança com a cantora internacional Rihanna. Amanda também mostra o seu gosto pela música. Cantarolava um rap que ela mesma compôs na detenção. A letra fala de alguns momentos difíceis na vida de uma apenada.

 

 

Na passarela

Na categoria Presidiária, as finalistas foram Ítala Martins, do município de Cajazeiras, Amanda Brito de Campina Grande, Renata Costa, de João Pessoa e Damiana Silva, de Patos.

Entre as candidatas Queens, as escolhidas para disputar a grande final foram Geralda Lopes, de Cajazeiras, Maria Tavares, de Campina Grande, Marinézia Ferreira, de João Pessoa e Raimunda Mesquita, de Patos.

Para representar as Plus Size, as escolhidas para disputar a final foram Simone Firmino, de Cajazeiras, Fernanda Melo, de Campina Grande, Márcia Félix, de João Pessoa e Joseane Soares, de Patos.

Durante o evento, a plateia parecia surpresa com aquela mulheres que desfilavam esbanjando charme nas poses para as fotos. Havia um ar de descontração, bastante atípico no meio prisional. A cada passo das concorrentes na passarela, o público vibrava escolhendo suas favoritas, quebrando o preconceitos e agindo como se estivesse dando a contribuição no processo de reintegração das apenadas à sociedade.

Plateia e júriFoto: Plateia e júri
Créditos: Portal Correio

Depois dos desfiles com trajes de gala, que aconteceram por categoria, os jurados tiveram um intervalo para decidir e computar os votos. Tomadas pela emoção todas as candidatas foram chamadas ao palco e homenageadas antes da divulgação do resultado. Receberam flores e kits de beleza, doados por empresas parceiras desse projeto.

Todas juntas aguardando o resultado

Foto: Todas juntas aguardando o resultado
Créditos: Portal Correio

Após a divulgação do resultado, a competitividade deu lugar à união e à comemoração das finalistas se deu em uma alegria coletiva. A Plus Size Fernanda Melo foi a vencedora de sua categoria, como a Queen Farinézia Ferreira foi a campeã.

Como Miss Presidiária, Renata Costa foi vitoriosa, não só pelo título, que conseguiu junto às companheiras do sistema prisional mas, por ter conquistado o orgulho da mãe, que subiu ao palco e muito emocionada abraçou a filha, com a certeza de que Renata pode dar a volta por cima. A cena emocionou o júri e a plateia.

Fernanda Melo, Renata Costa e Farinalda; vencedoras do concurso

Foto: Fernanda Melo, Renata Costa e Farinalda; vencedoras do concurso
Créditos: Portal Correio

Renata Costa recebeu o abraço da mãe e comoveu plateia

Foto: Renata Costa recebeu o abraço da mãe e comoveu plateia
Créditos: Portal Correio

As três vencedoras ganharam bijuterias, roupas e perfumes. Claro que o maior presente foi a oportunidade de mostrar a capacidade de se erguer e recuperar a dignidade.

Após a festa, era a hora de encarar a realidade. Todas voltaram para os presídios algemadas e escoltadas em viaturas policiais. Deixaram naquela passarela um pedaço do sonho da liberdade, num dia especial.

Organização

Na composição da mesa de jurados estavam empresários do ramo da beleza e da moda, além do secretário da Seap, Walber Virgolino e da Miss Paraíba, Patrícia dos Anjos. A apresentação da final foi do jornalista da TV Correio HD, Wendell Rodrigues, e da primeira-dama do estado e jornalista, Pâmela Bório.

Segundo o secretário Walber Virgolino, o evento tem um papel transformador na vida das presidiárias paraibanas. “O objetivo é elevar a autoestima e materializar a dignidade das reeducandas. Todos os meses são da mulher, mas neste mês estamos homenageando aquelas pessoas que um dia cometeram erros e por isso sofrem o preconceito da sociedade. O estado tem por obrigação, mostrar as reeducandas, que ele se preocupa com o bem estar, com dignidade, com o caráter feminino dessas pessoas, então esse evento vem para coroar, festejar e parabenizar essas mulheres”, afirmou.

O secretário ainda confirmou que novas edições do concurso cultural que ressalta o lado feminino das apenadas serão realizadas nos próximos anos e que, em breve, o evento também se estenderá para o público reeducando masculino.

Portal Correio

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