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A Missa do Vaqueiro de Solânea: de uma história à tradição

11-300x225A Missa do Vaqueiro é um evento religioso, tradicional na cultura popular nordestina. É um espetáculo cultural que tem sua origem a partir de uma história sangrenta. No dia 08 de julho de 1954, o vaqueiro Raimundo Jacó, foi traiçoeiramente assassinado nas caatingas do Sítio de Lages, distrito do município de Serrita, localizado no alto sertão do Araripe, Estado de Pernambuco.
Raimundo Jacó era considerado um excelente vaqueiro, inteligente e corajoso, mas muito pobre. Seus feitos como vaqueiro, despertaram a admiração de muitos e a inveja de outros. Entre os invejosos estava Miguel Lopes, o acusado de ter cometido o crime quando ambos procuravam uma rês desgarrada do rebanho nas caatingas daquele sítio. Raimundo Jacó foi encontrado morto e ao seu lado, estavam a rês que ele conseguiu capturar e o seu cachorro. Uma pedra manchada de sangue denunciava o ocorrido. Raimundo Jacó foi sepultado no local onde fora assassinado. Outro fato marcante, é que seu fiel cachorro ficou no local do sepultamento até morrer de sede e de fome guardando o túmulo do seu dono.
O local da tragédia passou a ser visitado pelo povo em constantes romarias. No ano de 1971, por iniciativa do Padre João Câncio dos Santos, do Rei do Baião Luiz Gonzaga, primo de Raimundo Jacó, e pelo poeta Pedro Bandeira, repentista da região do Cariri cearense, realizou-se a Primeira Missa do Vaqueiro naquele local. Era uma homenagem à Raimundo Jacó, bem como à figura de todos os vaqueiros nordestinos.
A morte de Jacó virou sinônimo de protesto e de luta, diante da injustiça cometida, por não ter havido punição ao acusado. Também virou letra de música. A toada, “A Morte do Vaqueiro”, de autoria de Luiz Gonzaga e gravada em 1963, ainda é um hino de louvor de todos os vaqueiros nordestinos que se emocionam ao escutá-la:
Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi…

Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão …

…Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
Tengo, lengo, tengo, lengo….
A Missa do Vaqueiro também foi uma forma de homenagear, a coragem, a dedicação, o zelo pelo gado e a vida do homem sertanejo no semiárido, valorizando a cultura popular, as toadas, os aboios e o rico artesanato nordestino.
Atualmente, vários municípios do Nordeste, inclusive do Estado da Paraíba, celebram a Missa do Vaqueiro ou Pegas de Boi em suas datas festivas mais importantes, como forma de homenagear os vaqueiros locais, bem como manter a tradição em alusão ao vaqueiro pernambucano.
O município de Solânea tem registrado em seu histórico de festividades ligadas à cultura nordestina, a realização da festa do padroeiro “Santo Antônio”, São João, vaquejadas e argolinhas, dentre outras, que se traduziam em grandes manifestações populares.
Outra importante festividade que ocorria em Solânea até o ano de 1993, organizada por iniciativa do Sr. Antonio Constantino de Morais, criador, comerciante de gado e vaqueiro da região, era a Trezena de Santo Antônio (treze noites de novenas). No último dia da Trezena, era realizada uma missa ao ar livre. No dia seguinte era a vez da vaquejada. Esses eventos ocorriam em sua propriedade, na Fazenda Boa Vista, nas Barrocas, zona rural de Solânea, em comemoração ao dia de Santo Antônio.
Foi a partir destes antecedentes históricos e do desejo de contribuir para a revitalização das festividades tradicionais do município, que foi criada a Missa do Vaqueiro e Cavalgada de Solânea. A idéia surgiu numa descontraída conversa entre os amigos Geovergue Medeiros e Antonildo Constantino, conhecido popularmente como Nildo Constantino, no dia 24 de junho de 2009, dia de São João.
Passado o ano de 2009, iniciaram-se os trabalhos para a realização do evento. Havia a necessidade de formar uma comissão organizadora. Foram convidados os amigos Helton Martins e Wagner Viana para comporem a referida comissão. E, para celebrar a missa, foi convidado o Padre Geraldo Bernardi, recém-chegado à Paroquia de Santo Antônio naquele ano. Até hoje, é o pároco e a equipe mobilizadora da Igreja Matriz de Solânea são os responsáveis pelo momento religioso.
No dia 12 de junho de 2010, foi realizada a I Missa do Vaqueiro e Cavalgada de Solânea. A cavalgada contou com aproximadamente 320 cavaleiros. Começou aí uma história que está sendo protagonizada por homens, dentre estes, vaqueiros reais que trabalham na lida do gado, mulheres, crianças, jovens e idosos de Solânea e de várias cidades das regiões do Brejo e Curimataú da Paraíba, que preferimos denominá-los de vaqueiros.
Em 2011, o evento tomou proporções maiores e participaram em torno de 730 vaqueiros. Em 2012, participaram aproximadamente 1.300 vaqueiros. No ano de 2013, mesmo com a torrencial chuva ocorrida na data do evento, contaram-se mais de 1.100 vaqueiros vindos de Solânea e de vários municípios circunvizinhos. A expectativa para esta quinta edição é de um número ainda maior de vaqueiros que os registrados nos anos anteriores. Também se destaca a grande quantidade de féis que têm participado da Missa e das pessoas e famílias que vão às ruas assistir a passagem dos vaqueiros em cavalgada pela cidade.
A Missa do Vaqueiro de Solânea, também contribui para movimentar os vários segmentos do comércio local e da região, dentre eles os bares, restaurantes e lanchonetes; as fábricas que confeccionam camisas e bonés; as gráficas; e estabelecimentos de produtos agropecuários. A Comissão Organizadora não esquece a imprescindível importância dos patrocínios feitos pelas empresas e instituições públicas e, também, pelas pessoas que colaboram para o sucesso do evento.
Hoje, pelos seus números, a Missa do Vaqueiro de Solânea está entre as maiores cavalgadas do Estado da Paraíba e, cada vez mais, se consolida como um grande evento, no qual seus atores, os vaqueiros, estão contribuindo para a preservação da memória das raízes tradicionais da cultura local e nordestina.

Geovergue Rodrigues de Medeiros, Antonildo Constantino de Morais e José Helton Martins – membros da Comissão Organizadora da V Missa do Vaqueiro de Solânea.
Em 31/05/2014.

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Com Assessoria

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